Quarta-feira, 22 de novembro de 2017
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A eterna magia do pó de pirlimpimpim

Por Norma Leite Brandão *


Histórias infantis escritas na década de 20 resistem ao tempo e encantam as gerações posteriores.

Hoje, ao falarmos de literatura infantil, inúmeros nomes nos vêm à cabeça. Nunca se investiu e produziu com tanta fluência para um público específico. Mas, é importante que se diga, a figura-chave, o grande divisor de águas da literatura infantil brasileira foi reconhecidamente Monteiro Lobato, o precursor e o revolucionário que inspiraria depois inúmeros escritores. E isso não aconteceu por acaso. Os temas tratados e sua linguagem absolutamente inovadora deram à criança o respeito que ela merecia. Pela primeira vez surgia, no Brasil, uma obra infantil consistente, genuinamente brasileira e instigante, que desafiava seus leitores a buscarem sempre uma nova aventura.


Ah, bons tempos aqueles, você deve estar pensando. Tempos em que as crianças liam livros com o fôlego dos adultos e em que o bom texto valia mais do que mil imagens. Num certo sentido, houve mesmo um retrocesso. Aquelas crianças habituavam-se a uma linguagem escrita mais elaborada, de vocabulário e construções ricas. Também, como escapar ileso de personagens como a irriquieta e curiosa boneca Emília e a tímida Narizinho, de nariz arrebitado? Como resistir às histórias maravilhosas de Dona Benta? De que maneira não desejar uma Tia Nastácia e seus quitutes? Como ceder aos encantos do moleque Pedrinho, do Visconde de Sabugosa, o boneco cientista feito de uma espiga de milho? Sonhávamos com o pó de pirlimpimpim, o pó mágico que transportava as criaturas a qualquer ponto do espaço e a qualquer momento do tempo.

Sonho, fantasia e conhecimentos

Saiba que, das 34 obras de Monteiro Lobato, 17 volumes construíram a saga dessas personagens infantis. Insatisfeito com as traduções de livros europeus para crianças, ele criou aventuras com figuras bem brasileiras, recuperando costumes da roça e lendas do folclore nacional. E foi além, misturando tudo isso com elementos da literatura universal, da mitologia grega, dos quadrinhos e do cinema. Um fascínio!


Mas seu foco não residia somente no sonho e na fantasia. Preocupado em transmitir conhecimento, suas obras falam também sobre História, Geografia, Matemática, Português e Astronomia, com uma abordagem especialmente colorida e dinâmica. Nesse sentido, o autor seria o pioneiro da literatura paradidática, hoje tão em moda, aquela em que se aprende brincando. Suas personagens lidam com diferentes saberes de forma preciosa, com diálogos ricos e espontâneos. Misto de sabedoria, lucidez e, muitas vezes, criticidade.


Tudo no tom dos pequenos, os verdadeiras donos do discurso. Talvez seja essa a maior riqueza de seu texto: dar voz às crianças, num tempo em que não se aceitava isso.

É possível resgatar o pó de pirlimpimpim?

Ler e ouvir histórias sempre significou romper os limites da imaginação. No caso da saga das personagens de Monteiro Lobato, nada mais verdadeiro. Mas, conseguirão os filhos, sozinhos, no mundo moderno, derrubar as barreiras e obter acesso a tanta riqueza? Não. Quando muito, assistirão aos episódios, agora lançados pela TV em sua quarta versão, que modernizaram suas personagens e utilizam uma tecnologia impensável na época em que foram escritos. Ruim? Não. Se você, como pai ou mãe, souber capitalizar essa audiência, talvez ajude seu filho a conhecer de fato um pouco da obra desse grande escritor. Mais do que isso, transformará as pitadas televisivas em aperitivos para contar alguns trechos à noite da obra original... Que tal?

Livro é sobremesa

"Livro é sobremesa: tem que ser posto debaixo do nariz do freguês", dizia Lobato.

Por isso, como uma bela sobremesa, precisa ser servido com capricho, como se fosse festa! Promova algumas rodadas noturnas de leitura com seu filho.


Por onde começar? Comece pelo livro I mesmo, Reinações de Narizinho, o livro-mãe, a locomotiva do comboio, em que começa a saga do Sítio do Pica-pau Amarelo. Nele são apresentados todos as personagens e o autor inicia a trama de uma série infinita de cenas e aventuras, em que a realidade e a fantasia, tratadas pela sua poderosa imaginação, se misturam de maneira maravilhosa, como ocorre normalmente na cabeça das crianças.


Nesse relato, seu filho encontrará um vocabulário, por vezes, não conhecido, ou mesmo algumas construções de frases mais antigas. Não se assuste. Saiba que nada é tão poderoso para a ampliação de repertório lingüístico do que o contato com outras formas de narrativa, exatamente o que as crianças e os jovens de hoje precisam. O mundo está complexo, mas as narrativas dirigidas a esse público estão, a cada dia, mais simplificadas, reducionistas, habituando esses leitores a um esforço mínimo de leitura. Resultado? Uma pobreza enorme de vocabulário e posterior dificuldade de entendimento de textos mais elaborados.

Livro é viagem

Além de trechos mais requintados, você encontrará também, nas obras de Lobato, momentos de pura linguagem coloquial, brasileira, com gírias da época. Coisa divertidíssima! Mas, o mais importante numa experiência como essa será o contato com seu filho e a possibilidade de fazê-lo viajar com o poder das palavras.


Nossas crianças parecem, mais do que nunca, carentes do exercício da imaginação. Oferecemos a eles tudo pronto, sem maiores desafios. Imaginar significa viajar por países desconhecidos, conhecer povos de outras culturas, aventurar-se por mares nunca antes navegados. Materialize o pó de pirlimpimpim em sua casa em algumas sessões noturnas e, com ele, busque um pouco do sonho e da fantasia. Para isso, ninguém melhor do que o velho mestre Monteiro Lobato, já resgatado tantas vezes e, agora, em sua telinha diariamente.

Aproveite a deixa!


* Norma Leite Brandão é pedagoga e educadora.


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