Segunda-feira, 29 de maio de 2017
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Doença grave na família, como ficam as crianças

Por Carla Oliveira *


O que dizer às crianças quando um parente querido - ou mesmo um grande amigo - adoece gravemente? Como elas irão reagir? Clique aqui para saber.

Quando um ente querido é diagnosticado com alguma doença grave, a família toda sofre. As visitas constantes a hospitais, a ansiedade por resultados de exames, a angústia causada pela possibilidade de falecimento do doente, tudo isso é extremamente desgastante para os adultos. As crianças, mesmo que não tenham plena consciência do que está ocorrendo, também se sentem angustiadas - embora muitas vezes não demonstrem.


É preciso tomar um cuidado especial com os pequenos nesse momento: saber como explicar as coisas de maneira adequada, o que fazer para que eles não fiquem tristes e até mesmo o que dizer caso o parente venha a falecer. Para esclarecer essas questões, entrevistamos a psicóloga Maria Antonieta de Castro Sá*, que se dedica, entre outros trabalhos, a orientar a pacientes de câncer e seus familiares.


Nesta entrevista, a psicóloga se refere a crianças de três a doze anos, faixa etária em que esse tipo de situação merece atenção especial. Antes dos três anos, os pequenos ainda não sabem expressar ou assimilar direito a situação e, após os doze, já têm condições de buscar as explicações por si mesmos e estabelecer uma conversa franca com os pais. Confira!

Como as crianças entendem esse tipo de situação?


Maria Antonieta: Quando menores, as crianças são mais sensibilizadas pelo que sentem seus pais do que pelos fatos em si. Assim, seu desconforto, medo ou ansiedade tende a acompanhar as reações mostradas pelos pais, através de atitudes como impaciência ou tensão nos gestos. Doenças graves na família inevitavelmente acarretam mudanças na atmosfera familiar - sejam elas grandes ou pequenas - o que varia conforme o estilo de comportamento dos adultos, além de suas condições objetivas e pessoais para administrar a questão.


As crianças, por sua vez, expressam ou tentam disfarçar sua tristeza diante da doença de um familiar conforme seu próprio estilo de personalidade - como a introversão, por exemplo - e conforme a permissividade dos adultos para que elas se expressem. Pais autoritários e mais severos não costumam favorecer claras manifestações emocionais dos filhos, embora hoje seja mais comum que os baixinhos se sintam à vontade para mostrar o que sentem. Mas, quando há acontecimentos mais graves "no ar", geralmente os menores são mais atingidos mesmo pelo comportamento dos mais velhos, ainda que estes aparentem normalidade.


Por que algumas crianças se mostram indiferentes à situação?


M.A: Não é incomum crianças mostrarem indiferença diante de fatos preocupantes que a família atravessa, o que costuma ser uma forma delas se protegerem do sofrimento e, por mais que isto incomode aos adultos, é preferível que estes se limitem a lhes dizer e mostrar que estão ali, disponíveis para conversar, quando os menores quiserem e sobre o que quiserem.


Como explicar o que está acontecendo para as crianças?


M.A:
Com crianças até a média de seis anos, são mais adequadas explicações curtas e não há utilidade em mencionar diagnósticos e nomes da doença em questão. É adequado dizer coisas simples como: "mamãe está doente, tem um machucado no peito e vai ficar uns dias no hospital para tratar, mas volta logo". Ou então: "Vovó ficará em casa conosco e todos nós vamos ajudar, assim mamãe vai estar bem tranqüila. Você também vai ajudar e pode mostrar à vovó onde mamãe guarda as coisas que ela precisar".


Se houver perguntas do tipo:"por que ela vai para o hospital?", "o que ela vai fazer lá?", "vai doer?", as respostas podem seguir estes exemplos: "mamãe vai para o hospital porque só lá tem um remedinho pra ela dormir, enquanto o médico trata o machucado, e assim não vai doer. Lá podem tirar fotos de dentro do corpo, para o médico ver direitinho onde está o machucado e tratar logo - aqui não tem essas coisas pra cuidar da mamãe". Perguntas do tipo: "como ela se machucou?" ou "como é o machucado?", de preferência não são esclarecidas para crianças menores. Responda apenas: "Nós não sabemos, o médico ainda não descobriu, mamãe não lembra", etc.


Entre os sete e doze anos, as explicações já se aproximam bastante dos fatos reais, todavia não são necessários detalhes que mesmo os adultos nem sempre enfrentam facilmente. Então, já se pode comentar: "papai está doente, tem uma espécie de caroço nas costas (ou num osso, na barriga, onde for o caso) e vai para o hospital, para operar e tirar o caroço. Ele vai tomar anestesia, que é um remédio para dormir e só vai acordar quando a operação houver terminado".


Crianças desta faixa etária já conhecem a palavra "câncer", até pelas campanhas de prevenção que são divulgadas. E em geral sabem que câncer é curável, mas nem sempre, porque também já devem ter ouvido algum caso de pessoa falecida em função da mesma doença. Neste contexto, causa menos ansiedade informar o que ocorre por partes.


Primeiro se comunica a existência do caroço, a hospitalização e a cirurgia. Após a cirurgia, quando o familiar doente já tiver sido visitado pela criança, então é dado mais um passo, explicando que "aquele caroço que foi extraído do papai era um câncer, mas ele tem grande chance de ficar bom, por isso nós vamos ficar calmos e vamos ajudá-lo a continuar calmo também. Vamos dar todo o nosso carinho a ele e pedir a Jesus que o ajude a ficar logo forte. Vamos falar de coisas alegres com ele, evitar que ele fique triste, porque isso também vai ajudá-lo a melhorar" - crianças ficam em geral mais inseguras para se dirigir à pessoa que está doente.


É preciso evitar fazer comentários sobre o estado de saúde do doente na frente dos pequenos?


M.A:
Evitar conversas sobre doenças graves em presença de crianças é sempre mais aconselhável, porque se trata de um assunto para os adultos equacionarem e as crianças já têm, naturalmente, alguma tendência a imaginar que quase tudo o que acontece à sua volta é por causa delas. Mas aqui não se deve confundir conversas disfarçadas - bastante comuns - que aguçam muito mais a curiosidade infantil, com comentários realmente guardados, para os momentos de ausência dos mais novos. Quando for inevitável uma conversa de adultos na presença de crianças, não convém que isto ocorra antes que elas recebam uma dose mínima de esclarecimentos sobre o que a família está atravessando.


E quando a doença está avançada e há possibilidade de morte? Os pais devem ir preparando a criança?


M.A:
Em geral, é preferível dizer aos pequenos, com menos de doze anos, que "a doença vai passar". Quando é necessário um tratamento mais prolongado, como já mencionamos, as explicações devem ser dadas a eles à medida que cada etapa for se avizinhando, como: "agora a vovó vai ao hospital para fazer quimioterapia. São remédios que ela vai tomar, junto com o soro, e que vão ajudá-la a não ter outros caroços. Como estes remédios são fortes, pode cair o cabelo da vovó, mas quando o tratamento terminar, o cabelo vai nascer mais forte. Nós vamos escolher um lenço bem bonito pra ela usar e ninguém vai fazer gozações se o cabelo da vovó cair, pra ela não ficar triste".


Mesmo nos casos terminais, é preferível não abordar a possibilidade de morte com crianças até a idade de doze anos, em média. Conhecer a perspectiva de morte já acarreta grande angústia para os adultos e, para os menores, pode acarretar emoções mais intensas do que eles suportam. A perda de um parente próximo, para eles, não implica somente na dor, mas em insegurança e, por vezes, até mesmo no medo do abandono.


Para os mais novos, portanto, diante de moléstia avançada de ente muito querido, deve-se comunicar que "aquela pessoa está muito fraca, por isso não pode sair da cama, nem receber visitas e nós vamos pedir que Jesus a ajude a ficar mais forte, mesmo que não dê para ela sarar". Só se fala de morte com crianças quando isto de fato ocorrer. E esta é outra situação na qual é preferível falar pouco: "ela estava tão fraquinha que o coração parou. Não tinha mais resistência, por isso morreu. Agora está no céu com Jesus e vai proteger você".


O que fazer quando a criança fica muito abatida?


M.A: Para crianças abatidas ou tristes, o remédio mais eficaz costuma ser o mais antigo, ou seja, o amor. É preciso cercá-las de carinho - o que é diferente de mimos fora de sua realidade - com toda a proteção possível. Diga frases como "isso vai passar, nós vamos rezar juntos", ou "nós vamos procurar alguma coisa para deixar o papai (ou a pessoa que estiver doente) contente, vamos passear para este dia chato passar mais depressa". Cinema e lugares onde há comida atraente e doces costumam ser boas opções.


Diante do choro de uma criança ou mesmo adolescente que tenha uma pessoa muito próxima doente, jamais se deve censurá-lo ou reprimi-lo. Deve-se abraçá-lo, dizendo algo como: "pode chorar à vontade, vai ser bom, é como lavar seu coração e isso vai mandar a tristeza embora, você vai se sentir melhor". Há situações nas quais o choro dos pequenos emociona o adulto e então chorar junto com eles - evitando mostrar desespero, além de ser humano, é um exemplo de auto-aceitação para as crianças.


O importante é passarmos aos mais novos sempre a expectativa de que tudo vai melhorar. Nossos medos são assuntos nossos. Para as crianças, deve-se sempre transmitir possibilidades de solução, ainda que vagamente. Diga a ela que você não vai deixá-la sozinha e que tudo vai melhorar.


O que os pais devem evitar fazer num momento como este?


M.A:
É fundamental que os adultos não usem as crianças como apoio e refúgio para sua tristeza, ou para aliviar suas angústias. Para aqueles que se surpreenderem numa atitude deste gênero, vale a pena sugerir que se lembrem de si próprios quando eram crianças e como era bom ter a proteção e a segurança dos mais velhos. Com certeza, estes adultos precisam de uma ajuda psicológica profissional, para lidar com o episódio em questão.


Doença grave é sempre motivo de alguma desestabilização na família - a rotina se altera, o clima doméstico é mais pesado, a alegria perde espaço e o medo paira entre os olhares das pessoas. Esclarecer as dúvidas das crianças não pode implicar em massacrá-las com detalhes estranhos ao seu universo, com conversas ao nível de berros, nem tampouco cochichos, que só sugerem coisas ruins e imprimem um colorido muito mórbido ao dia a dia de todos.


Se procurarmos lembrar de nossa infância, perceberemos que naquela fase tudo nos parecia maior, desde a sala de nossa casa até as palavras que não compreendíamos bem ou as cenas que nunca tínhamos presenciado. Uma doença grave nos leva a reviver muitas daquelas sensações, como se o perigo, o medo e a angústia também não coubessem dentro de nós. Se nos deixarmos envolver pelo desespero, aceitaremos uma péssima companhia e um mau conselheiro - e só seremos inadequados, principalmente com as crianças.


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