Sexta-feira, 01 de agosto de 2014
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Expulsão escolar, uma situação delicada

Por Norma Leite Brandão *


A cena é clássica. Os pais são chamados à escola para o veredicto derradeiro: um "convite" para que o jovem seja transferido a outra instituição.

Apesar de clássica, a cena traduz diferentes fracassos: o da escola, que ao esgotar seus recursos não encontra mais caminhos; o dos pais, que perderam o rumo na difícil tarefa de educar; o do jovem que precisará recomeçar uma nova história escolar, num outro ambiente, com outros colegas e professores.


Essa novela, porém, já foi mais esporádica. Atualmente tem se mostrado bastante freqüente, seja porque a questão disciplinar tenha tomado rumos inesperados, seja porque talvez, na ânsia por novos alunos, as escolas não investiguem mais e não deixem claros alguns pré-requisitos básicos para o ingresso no estabelecimento.

Uma questão de limites

Esse rodízio de alunos começa a acontecer a partir dos 12, 13 anos e acentua-se no ensino médio. Mas é necessário dizer que, quando medidas extremas são tomadas por parte do colégio, um longo caminho já foi percorrido e vários episódios exigiram conversas com professores, coordenadores, advertências orais e escritas.


Importante, também, salientar que, nos casos de expulsão por motivos comportamentais, freqüentemente a escola se depara com situações de absoluta solidão e impotência para lidar com os alunos. A família, em muitos episódios, não consegue enxergar a real dimensão do problema. Tem dificuldades reais para aceitar e atuar em parceria com os profissionais. Em alguns casos, possui valores totalmente distintos dos valores da instituição. Quando isso se dá, tudo fica inviável e, diante de um acontecimento mais significativo, a direção se posiciona.

A sobrecarga das escolas

Não, não se trata de dar razão somente a professores. Apenas cabe aqui afirmar que uma expulsão é algo dolorido para todos os envolvidos. As escolas, atualmente, mesmo que pequem por vários motivos, ainda que não se tenham transformado como deveriam, vivem momentos difíceis - de sobrecarga nas áreas pedagógica e educacional. Defrontam-se com questões sérias de âmbito familiar.


Nunca assumiram tantas funções antes pertinentes a pais e mães. Por isso, no momento em que tomam uma posição extremada, muitas vezes o fazem por perceberem sua impossibilidade real de atuação, por acreditarem que aquele espaço não é o mais adequado para aquele aluno e, em alguns casos, por precisarem cuidar do bem coletivo.


Parece duro dizer que a expulsão de um aluno, em algumas situações, tem como meta o bem coletivo. Mas é real. A partir de uma determinada idade, alguns comportamentos, já sedimentados, podem tornar a rotina de uma sala de aula insustentável e colocar em risco não somente o trabalho pedagógico, mas os valores do grupo. Os objetivos e conteúdos educacionais de uma escola de qualidade vão além da mera informação. Zelar por questões básicas como respeito, disciplina, honestidade, entre outras tantas, significa atuar individualmente e no grupo - atuação que precisa estar preocupada com os reflexos da ação do aluno no todo.

As causas e as ações

Casos extremados, que implicam em expulsão, com muita freqüência estão ligados a questões familiares mal resolvidas - não surgem de uma hora para outra, de forma surpreendente. Normalmente são histórias que se arrastam por anos a fio, num crescendo, como se as pessoas envolvidas no processo tivessem perdido o tempo certo para atuar. A coisa rola como uma bola de neve, a cada momento, acrescida de mais dificuldades. Isso ocorre porque as famílias nunca estiveram tão distantes de seu papel.


Algumas parecem ter perdido mesmo o pé: dificuldades de dar limites, superproteção diante da vida real, pais e mães trabalhando em excesso, dinheiro solto na mão de crianças e jovens, a mídia com apelos fortíssimos e, por fim, a presença - cada dia mais intensa - das drogas no cotidiano. Precisa mais? Não. Esses já são elementos suficientes para desestruturar boa parcela das famílias.


Quando se vive a realidade da expulsão escolar, é importante que uma grande pausa seja dada para que, em conjunto, se possa refletir, buscar causas e caminhos. Não se trata de procurar culpados. A hora não é para isso. Mas o jovem precisa ter a consciência da seriedade do fato. A "ficha precisa cair", como dizem eles próprios.


Passar a mão na cabeça e dizer frases como: "aquela escola não soube lidar com você", não ajuda em nada. Só acentuará o problema. Porque, não se engane, ele continuará existindo no próximo ano, com um outro grupo. A relação de consumo, recentemente estabelecida entre pais e colégios, leva, em inúmeros casos, a uma falsa consciência de que basta trocar de escola para que tudo entre nos eixos. Não é bem assim. Se professores ainda deixam a desejar em sua forma de atuação, as famílias também precisam rever o que acontece dentro de suas casas. Há valores maiores que começam no pai e na mãe. Professores têm o papel de reiterá-los, reforçá-los. Mas não são pais.



A mudança inevitável para um novo ambiente escolar implicará, também, em alterações do comportamento familiar em relação ao adolescente. Elas incluem observação mais atenta do seu cotidiano, escolha mais consciente da nova instituição, participação efetiva dos pais em suas propostas, diálogo e, em alguns casos, a presença de algum especialista que norteie o caminho.

Correndo atrás do prejuízo

Nessa história toda há um componente importante a ser levado em conta: as escolas vivem um momento de intensas alterações. Tal fato não significa que tenham encontrado saídas mágicas para lidar com essa nova juventude e com esse novo modelo familiar que aí está. Elas estão correndo atrás do prejuízo, não tenha dúvidas.


Nesse cenário em ebulição, ainda não conseguem inserir um determinado perfil de aluno em seu quadro, o que seria uma das funções de uma escola democrática e que acredite no poder da transformação. Para confundir mais o quadro, há pais que vivem determinados problemas porque insistem em determinado colégio, com padrões e formas de atuação mais rígidos que não possibilitam a inclusão.


Por isso mesmo, ao se deparar com o pedido de retirada do filho da escola, mais importante do que questioná-lo, pais e mães devem estar voltados para si próprios, para o seu filho e para a busca de saídas menos traumáticas.


Colocar os pés no chão


Não, isso não significa suavizar o caminho do jovem. Mais do que nunca ele precisa ser chamado à realidade. Nunca precisou tanto de limites e firmeza. Mas, esteja certo, nunca teve tanta necessidade de afeto, diálogo e clareza para repensar suas ações. Isso, só você, nesse momento, poderá dar. Na realidade, a atuação da família precisará ir além das questões escolares. Significa levar em conta direitos e deveres no cotidiano da casa, repensar em conjunto uma série de normas e de formas de atuação. Costuma-se dizer que nunca os jovens tiveram tanto e, ao mesmo tempo, tão pouco! Possuem bens materiais em profusão, volume de informação, mas, do ponto de vista emocional, vivem uma carência extrema!


Esse instante de mudança precisa ser visto como o recomeço de uma nova história pelo jovem. E ela não é nova somente porque são outros os professores e amigos. Ela deverá ser nova porque pai e mãe deverão ter um novo olhar. Porque o adolescente terá a oportunidade única de começar sem rótulos, sem a marca tão dolorida que permeou seu caminho até então. Só os que vivem esse momento sabem que o estigma do "aluno-problema" fere a auto-estima e dificulta o crescimento. Por falar em recomeço, impossível não deixá-lo marcado com as palavras do grande Fernando Sabino, mestre em ver a poesia no cotidiano:


De tudo ficaram três coisas:

A certeza de que ele estava sempre começando,

A certeza de que era preciso continuar

E a certeza de que seria interrompido

Antes de terminar.


Fazer da interrupção um novo caminho,

Fazer da queda um passo de dança,

Do medo uma escada,

Do sonho uma ponte,

Da procura um encontro.


* Norma Leite Brandão é pedagoga e educadora.


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