Domingo, 29 de novembro de 2020
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O chato da turma

Por Lucy Casolari *


Crianças que reclamam sempre ou que viram feras quando sua vontade não é atendida, acabam rotuladas de chatas. E, pior, correm o risco de perder seu espaço no grupo!

Tudo é motivo para suas queixas intermináveis e constantes. Se os colegas, no recreio, queriam uma brincadeira e o "chato" sempre prefere outra, surge um "gravíssimo" problema, muitas vezes sem solução. Se a amiga não a esperou ou a professora não elogiou - de forma enfática - sua lição, pode-se aguardar uma série de reclamações. E ainda, caso a mãe compre uma roupa bonita, mas de cor diferente da desejada, com certeza outra cena dramática irá se desenrolar!


Emburrada e mal-humorada, esta criança mostra-se insatisfeita o tempo todo. Parece esperar que tudo e todos estejam prontos para adivinhar e atender, sempre e incondicionalmente, a todas as suas vontades. Essa forma de reagir pressupõe, em alguns momentos, uma terrível perseguição, o sentimento de que todos estão contra; em outros, a exigência de uma atenção especial, como se fosse o centro único do universo.


O quadro descrito fica mais visível e significativo a partir dos 8 ou 9 anos, quando se espera que as crianças administrem seus conflitos e frustrações com uma certa autonomia. Além disso, nessa fase já é mais comum conseguirem negociar entre si, sem tanta necessidade da intervenção do adulto. Isso começa, sem dúvida, a dificultar a aceitação daquela criança que não consegue ceder e espera que todos se submetam à sua vontade. Para isso utiliza-se de todas as queixas e reclamações para mobilizar a atenção de pais, professores e colegas.


Se olharmos pelo outro lado, um exemplo ilustrativo é o da garota que não queria mais passar o recreio com outra, por causa de suas imposições. De acordo com suas palavras: "ela é muito chata, pensa que é minha dona". A reação da menina, que se rebelou contra a dominação da amiguinha, demonstra independência e auto-afirmação e a sua tendência é se afastar das "mandonices" dela, ou seja, rejeitar. Esse é um sério risco para a criança que espera atenção total e que todo o mundo se mobilize para promover sua satisfação: ganhar a fama de chata e, conseqüentemente, ficar isolada do grupo.

Atenção para dentro de casa!

Essa postura de insatisfação constante merece uma análise, pois pode ser um reflexo do que se vivencia em casa. Muitas vezes, até sem perceber, os pais tendem a se queixar freqüentemente da vida, do trabalho, dos outros, não se dando conta de que essa atitude negativa tem influência até mesmo em sua dificuldade de alcançar as metas desejadas. Se nunca nada está bom o suficiente, a família vive um clima de total frustração que atinge a criança, além de ser um modelo de comportamento.


Outro dado a ser considerado: será que seu filho não foi habituado a ter, sempre, todas as suas vontades atendidas, da forma mais pronta possível? Se tudo foi facilitado demais, a criança fica ressentida quando não consegue a atenção total. Na escola, por exemplo, tem que dividir a professora com seus colegas e... esperar para ser atendida! Isso não significa que esteja sendo deixada de lado, mas se foi acostumada a ter todas as necessidades satisfeitas imediatamente, acaba se sentindo abandonada e tenta garantir seu espaço, a todo custo, por meio de queixas, reclamações e, até, de atitudes agressivas. Desse modo, seu comportamento torna-se cada vez mais inconveniente, aumentando, por fim, a possibilidade de ser rejeitada.

Reflexão, o melhor remédio

Se você percebe que seu filho está vivendo esse processo, fique atento para ajudá-lo. Se suas queixas são constantes e em relação a tudo e todos, fica claro que sua postura está provocando a reação dos outros. Evite, portanto, sair em sua defesa, de forma incondicional. Procure fazê-lo refletir sobre seus sentimentos, tente mostrar o lado dos outros, para que consiga se colocar no lugar deles.


Algumas perguntas podem ajudá-lo a pensar em suas atitudes. "Como se sente ao achar que está sendo deixado de lado pelos outros? Será que você não está sendo chato ao exigir que todos façam somente o que quer, sem escutar e respeitar a vontade deles? Como se sentiria se seu amigo ficasse cutucando você o tempo todo?"


No caso de reclamações referentes à professora, procure investigar para dimensionar a sua procedência, pergunte-lhe o que sente em relação a ela, como é atendido nas dúvidas e dificuldades em classe. Converse com a professora para obter um quadro real de suas atitudes, verifique como está a sua integração com os colegas, como se relaciona com eles. Peça ajuda para reverter a situação delicada em sala de aula, se for confirmada a rejeição ou houver um movimento em direção ao rótulo de "chato da turma".


A presença do grupo é fundamental e as próprias crianças podem ser trabalhadas para esclarecer seus sentimentos, umas em relação às outras. A intermediação da professora mostra-se preciosa nas questões de relacionamento. A partir de conversas bem orientadas, os amiguinhos explicitarão quais são as atitudes que incomodam, facilitando, assim, a percepção e a conseqüente mudança de comportamento da criança com dificuldades de integração.

Sentimentos da família, como lidar?

Não é nada fácil admitir que seu filho ficou rotulado de chato e está sendo rejeitado por causa disso, mas a aceitação é o primeiro passo para o encaminhamento de uma solução. A situação é delicada e, sem dúvida, causa angústia e sofrimento para a criança e para a família


Se os pais colocam o filho, alvo do isolamento, na condição de coitadinho, fica ainda mais difícil para ele se defender construtivamente e se integrar ao grupo. A superproteção da família traz, embutida em si, a falta de confiança na sua capacidade. Assim, a criança deve, sim, ser apoiada pelos pais por um lado, mas incentivada, também, a lidar com a situação!


Colocar toda a responsabilidade pelas dificuldades de seu filho nos outros - colegas inconvenientes, inabilidade da professora ou da escola - também não resolve a questão. Muitas vezes cria, ainda, o hábito de responsabilizar os outros por seus insucessos. Procure enxergar com objetividade - claro, a maior possível dentro desse contexto - e apoie seu filho para que ele consiga se perceber e, a partir daí, se esforce para alterar seu comportamento.


A escola e a família, uma ação conjunta

Reconhecer a existência de conflitos é essencial para enfrentá-los e intervir de forma positiva. Quanto mais cedo as questões forem identificadas e resolvidas melhor, pois crianças são menos preconceituosas que adolescentes. É na infância, portanto, que esse trabalho deve ser iniciado, mas de modo algum, embora bem mais difícil, pode ser interrompido na fase posterior. A postura da escola contribui para que não se cristalizem visões equivocadas que, futuramente, ajudam a originar grupos fechados e poderosos, responsáveis pela rejeição e exclusão, o que favorece a explosão da violência dentro do espaço escolar.


Se a família estiver atenta, confiar na filosofia da escola e na atuação de seus profissionais, provavelmente a integração do seu filho ao grupo, embora mais complicada, acabará sendo satisfatória. Entretanto, se você sentir que, apesar dessa parceria, os resultados não foram alcançados, procure buscar a orientação de um especialista que, ao analisar o caso com maior profundidade, saberá encontrar pistas e traçar diretrizes para seu filho e toda a família.


* Lucy Casolari é pedagoga e educadora


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