Sexta-feira, 22 de setembro de 2017
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Dislexia, ler sem entender

Por Norma Leite Brandão *


Quando as crianças começam a ler e a escrever, surgem alguns pequenos sustos: confusões e inversões de letras, sílabas e números, dificuldades com os textos, ilegibilidade na escrita, alguma confusão com a lateralidade.

Essas são algumas questões, a princípio, esperadas diante do desafio que os pequenos têm pela frente. São normais, refletem estágios de amadurecimento, tentativas de acerto. Experimentar e errar faz parte de qualquer aprendizado. Mas, para algumas crianças, o tempo passa e a situação se agrava. Com o aumento de conteúdo, os sustos iniciais da escrita, aliados a outros, parecem não refletir somente um momento específico. É então que professores e pais precisam estar especialmente atentos para perceber o que ocorre.

Descartando hipóteses

Nem todos os problemas na aprendizagem e utilização da linguagem podem ser considerados como dislexia, uma dificuldade específica da leitura e da escrita que atrapalha o reconhecimento das letras e números, entre outros aspectos.


Antes disso, é importante que se analisem questões como: imaturidade, problemas de ordem emocional, carências culturais, métodos de aprendizagem utilizados, entre outros. Esses são alguns fatores que podem confundir o quadro e levar a um diagnóstico prematuro da criança. Aliás, importante frisar: o diagnóstico da dislexia é considerado um dos mais difíceis e só deve ser feito por especialistas habilitados para tal.


No entanto, são os professores e pais os que primeiro se defrontam com as questões da criança. Por isso a cautela e a observação constantes são necessárias. Se precisarem da ajuda de um profissional, é importante que estejam atentos a algumas manifestações.

Pequenas pistas podem ajudar

Alguns dados podem auxiliar família e escola a levantar hipóteses sobre o que possa estar ocorrendo com a criança e devem ser sempre considerados em seu conjunto.


Aspectos da história pessoal:


  • Existência de casos de dislexia na família
  • Atraso na aquisição da linguagem oral
  • Atrasos na locomoção
  • Problemas de dominância lateral (esquerda/direita)


    Alguns aspectos relacionados à leitura e escrita:

  • Confusão entre letras, sílabas ou palavras com pequenas diferenças de grafia ou inversões: b-d, b-q, n-u, a-o, e-c, f-t, h-n, m-n...
  • Confusão entre letras que possuem sons próximos: d-t, j-x, c-g, m-b....
  • Inversões: me-em, sol-los, pla-pal
  • Adição ou omissão de sons: famoso - fama, casa - casaco
  • Ilegilibilidade
  • Dificuldades de soletração e de leitura. Salta linhas e se perde com freqüência no texto. Em decorrência, não há compreensão do material escrito.
  • Confusão na lateralidade


    Outros aspectos:


  • Dificuldades em matemática (tabuadas, seqüência numérica, cálculos, lentidão nas operações)
  • Dificuldades em alguns atos motores: pegar ou chutar bola, amarrar os sapatos, trocar de roupa, abotoar a camisa
  • Tempo maior para a realização das tarefas
  • Atitude depressiva ou agressiva diante de suas dificuldades
  • Antipatia ou recusa a atividades ligadas à leitura e escrita
  • Insegurança, falta de auto-confiança, baixa auto-estima


    Essas são somente algumas pistas. A análise da extensão de cada uma delas e sua freqüência, não cabe à família, nem à escola. Mas servem de ponto de partida quando, após diferentes tentativas dos professores, as dificuldades de leitura e escrita não são vencidas.

    As coisas podem não ser tão difíceis assim

    Importante dizer que se o quadro da dislexia pode assustar, ele também precisa ser olhado com carinho e compreensão. A primeira e maior questão parece ser, diante da suspeita, buscar o parecer de um especialista. Realizada a investigação e confirmado o diagnóstico, a segunda e não menos importante atitude é compreender que seu filho, garoto inteligente e esperto, apresenta um quadro de dificuldade específica, localizada, mas que se reflete em várias áreas do conhecimento.


    Propiciar-lhe um atendimento que o ajude a vencer esse obstáculo é abrir portas, é ajudá-lo a enfrentar o que virá posteriormente. Mas tão fundamental quanto o tratamento realizado é o papel da família e da escola diante do quadro. Aceitação e ajuda mútua são elementos que não podem faltar.



    No caso de confirmação do diagnóstico de dislexia, cabe à escola um olhar diferenciado sobre seu filho, o olhar de profissionais que descubram caminhos, que saibam propiciar um tempo especial e busquem saídas alternativas. É papel de qualquer instituição e você tem o direito de esperar dela essa função. Para isso, o diálogo precisa estar presente e os profissionais devidamente orientados em sua atuação.


    Nesse sentido, espera-se não somente um vínculo mais estreito entre professor, aluno e pais, mas a busca de uma didática mais adequada. Quanto à família, por que não diminuir as altíssimas expectativas e depositar nesse filho confiança e encorajamento? Pode parecer difícil, mas não é impossível. E, tenha a certeza, é disso que ele precisa como ponto de partida.

    Algumas dicas para ajudar

  • Não faça comparações com irmãos ou colegas. Isso só levará a mais insegurança
  • Não o rotule de preguiçoso ou desleixado - é tudo o que ele não é
  • Não o pressione com a perspectiva de não passar de ano. Seu filho precisa de tempo
  • Não se surpreenda com o cansaço ou o desânimo. Faz parte do processo
  • Esqueça a letra bonita. Ela não significa necessariamente aprendizado
  • Pare de lhe pedir que se esforce. Tente incentivá-lo nas coisas que gosta de fazer e que faz bem. Há muitas, pode estar certa
  • Enxergue sempre e em primeiro lugar as conquistas, ainda que pequenas do seu ponto de vista
  • Fale francamente sobre as suas dificuldades, mas sem longos discursos
  • Faça com que perceba a importância de caminhar mais lentamente. Diminua sua ansiedade


    Quando os pais enxergam e aceitam de forma plena as dificuldades específicas, quando eles as vêem como obstáculos a serem transpostos com cuidado e carinho, ainda que a passos mais lentos, tudo pode parecer menos difícil para a criança. Ela precisa, antes de tudo, sentir-se aceita como é para que, gradativamente, com a ajuda de especialistas, enfrente seu percurso.


    Hoje já há meios de se atuar de forma mais real, interferindo e alterando o quadro que, no passado, era limitador. Há escolas especializadas no assunto e profissionais que podem ser consultados para análise e acompanhamento - como a ABD, Associação Brasileira de Dislexia. (**)



    Finalizando, procure ver no processo vivido por seu filho, não somente as dificuldades, mas a luz que traz consigo. Certa vez, durante um curso, um renomado especialista disse a seu público que são as crianças e famílias que aceitam e abraçam incondicionalmente os novos tratamentos, as grandes responsáveis pela evolução da medicina e de suas terapias. Elas parecem ter uma função maior: iluminar e abrir caminhos para si e para outros casos que virão. Por que não retirar do momento vivido o aprendizado da tolerância e o desafio da descoberta?


    * Norma Leite Brandão é pedagoga e educadora.


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