Terça, 23 de maio de 2017
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Meu bebê virou adolescente!

Por Sandra Navarro *


De repente seu filhote cresceu e agora quer voar com as próprias asas. Pois é, ele virou um adolescente!

A adolescência é uma fase idealizada na nossa cultura. É bastante comum ouvirmos pais muitos receosos, precavendo-se da forma que podem para "enfrentar a barra" de ter um adolescente em casa. Não é para menos, pois sem dúvida, estamos falando de conflitos, crises, dúvidas e angústias, absolutamente inerentes a essa fase da vida. Não se pode querer que tudo isso seja fácil ou tranqüilo, mas se pode tentar abrir um espaço no meio desse temor para refletir.

Mudança de hábitos

Não é raro vermos pais planejando ocupar completamente o tempo de seu filho, "para não sobrar espaços para os vícios, os maus hábitos, as caraminholas". Ou ainda, pais que, de uma hora para a outra, passam a ordenar ao filho que arrume o quarto três vezes por dia, leia dois livros por mês, pratique futebol, tênis, judô e natação ao mesmo tempo.


Instalam um verdadeiro regime militar que, antes, não era exigido. Ou tomam o caminho oposto: certos pais acham tão difícil chegar perto de seu filho arredio, que desistem de seu papel e "esperam essa fase passar". Tudo parece indicar que tendemos a enfiar regras, tarefas, ou qualquer outra coisa, para diminuir o espaço do conflito. Mas, esteja certo, esse tiro sairá pela culatra! É óbvio que bons hábitos e esportes são fundamentais para o desenvolvimento de todo ser humano, mas não podem servir para "tampar" um processo que precisa de espaço.

Nem criança, nem adulto

A adolescência instala uma crise no jovem, na família, nas instituições. Essa crise faz com que inúmeros conflitos se reeditem a cada instante, em todas as tarefas cotidianas. Não é possível lidar com isso apenas por meio da repressão. Se for necessária, ela precisa estar acompanhada de uma elaboração sólida a respeito de tudo de novo que está acontecendo.


O adolescente é alguém que está saindo da infância e ainda não chegou a um território adulto - há que se questionar melhor o real significado do termo "território adulto". Tomo, por ora, a expressão só para designar o conjunto das posições afetivas habituais.


O instrumental da vida infantil não lhe serve mais. E ele ainda não tem as ferramentas para a vida adulta. Além de estar em pleno "terreno móvel", ainda precisa lidar com a angústia de ter perdido aquilo que conhecia: seu corpo infantil, sua identidade de criança e seus pais da infância.


No entanto, há um certo engano quando se enxerga, nessa passagem da infância para a maturidade, um buraco, um nada, um ser que não é uma coisa nem outra. Aí é que está o problema: o adolescente é um ser em crise, em conflito. Esse momento é absolutamente necessário como etapa evolutiva. Não dá para os pais evitarem.

Crescer pode ser dolorido

É no meio deste turbilhão que o jovem vai estabelecendo sua identidade. A instabilidade emocional, as tristezas ocasionais, os rompantes de ódio, as contestações, são parte do caminho para o crescimento. E, não há outro trajeto.


A psicanalista austríaca Anna Freud assinala, em sua obra, que seria anormal a presença de um equilíbrio estável durante o processo adolescente. Portanto, é necessário que os pais possam entender o momento, mas antes de tudo, que possam se ver como integrantes dessa crise.



Esse é um ponto importante: os pais entram em crise junto com seus adolescentes e precisam reconhecer isso. Ao se reconhecerem como perturbados e perturbadores, ao dimensionarem quanto a crise dos filhos afeta sua própria história, conseguirão se identificar com os filhos na medida necessária para poder elaborar o conflito, e não mascará-lo.

Lidar com a crise é a saída

Claro que não é fácil. Toda essa situação é muito intensa e mobiliza questões inconscientes de ambos os lados. O filho adolescente, sem saber, evoca o adolescente que fomos, com tudo aquilo que não gostamos em nós mesmos, nossas inseguranças, nossas angústias não resolvidas.


Evoca, ainda, aquele adolescente que gostaríamos de continuar sendo, mas não somos mais. Para agravar ainda mais a situação, provoca um questionamento desconfortável nas nossas defesas construídas para enfrentarmos esse mundo de adultos.


No entanto, se pudermos, como pais, aceitar o quanto estamos mergulhados nesta crise, talvez possamos tirar daí a criação de um saber, de um pensamento que permita a existência da crise - tão necessário nesse processo evolutivo. Acredito que, se conseguirmos não ocupar o espaço do conflito com um sem número de tarefas ou até mesmo com uma triste situação de isolamento, poderemos não atrapalhar a importante tarefa que os adolescentes têm, que é crescer.


* Sandra Navarro é psicóloga formada pela PUC-SP. Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto "Sedes Sapientiae", onde também leciona no curso Clínica Psicanalítica: Conflito e Sintoma


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