Sexta-feira, 31 de outubro de 2014
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Pré adolescência, entenda essa fase

Por Carla Oliveira *


Dos 10 aos 12 anos, em média, seu filho irá sofrer uma série de transformações físicas - a puberdade - que, por sua vez, desencadearão importantes mudanças emocionais. Prepare-se para ajudá-lo a enfrentar esse processo!

Num dia, sua filha está brincando no parquinho, vestida com aquele conjuntinho rosa que você escolheu - todo lambuzado de sorvete! - e com um sorriso lindo no rosto, como só as crianças têm. No outro dia, esse mesmo anjinho passa horas falando com os amigos pelo computador e ouvindo músicas barulhentas no último volume, só quer saber de vestir roupas da moda, bate a porta quando você tenta explicar que ainda é cedo pra ela sair sozinha e ainda diz que desse jeito nunca vai arranjar namorado. Namorado? Isso mesmo, sua filha está crescendo!

Essas mudanças de comportamento e de interesses são acompanhadas por mudanças físicas. O corpo da menina começa a ganhar contornos mais femininos: os seios vão crescendo aos poucos, a cintura vai se afinando, os pêlos nascem. Os meninos também enfrentam muitas transformações. A voz engrossa, o pênis aumenta de tamanho, os pêlos se espalham por todo o corpo. E, tanto o menino como a menina, crescem bastante - às vezes até mais de 10 centímetros em um ano! - e ganham peso.

A grande responsável por toda essa revolução tem o tamanho de uma ervilha! É a hipófise, glândula que fica localizada no meio do cérebro. Lá pelos nove ou dez anos, a hipófise resolve que chegou a hora da mudança e começa a secretar hormônios que estimulam as gônadas (testículos e ovários) a produzir os hormônios sexuais, causando todo esse alvoroço - também conhecido pelo nome de puberdade. A partir daí, quem era criança vira pré-adolescente! Essa fase de intensas transformações é muito complicada e os pais devem se munir com doses extras de paciência e compreensão para enfrentar tudo isso junto com os filhos.

Mudanças no corpo...

Para entender o que se passa na cabeça dos pré-adolescentes, é preciso primeiro entender o que acontece com o corpo deles. Nas meninas, o primeiro sinal da ação dos hormônios é o desenvolvimento dos seios, que ficam doloridos e sensíveis - é normal que um seio seja maior do que o outro. Ao mesmo tempo, surge uma penugem nas axilas e na vulva. Tanto o cabelo como a pele ficam mais oleosos, podendo aparecer espinhas. A transpiração aumenta e ganha um odor mais forte. A cintura fica mais fina e o quadril, mais largo. Começa a surgir uma secreção vaginal esbranquiçada e a primeira menstruação ocorre cerca de dois anos depois do início de todo esse processo.

Nos meninos, as mudanças começam um pouco mais tarde e são mais lentas. Os órgãos genitais aumentam de tamanho, a voz torna-se mais grave, o tronco e o ombro alargam-se e aparecem pêlos por todo o corpo. Sua pele também fica mais oleosa e a transpiração adquire um cheiro forte. Apesar de crescerem bastante, nessa etapa os meninos costumam ser mais baixos do que as meninas. Todas essas alterações hormonais têm grande influência sobre o comportamento dos pré-adolescentes, deixando as meninas mais sensíveis e sociáveis e os garotos mais agressivos.

... e na cabeça!

A palavra adolescência vem do termo em latim "adolescere", que significa amadurecer. É isso mesmo o que vai acontecer com seu filho nessa fase. Ele vai crescer, vai mudar sua forma de pensar e de se relacionar com o mundo, vai ter desejos, sonhos e interesses diferentes - enfim, sua vida vai ganhar um novo sentido.

A pré-adolescência, como o próprio nome diz, é uma preparação para essa fase. Antes de tudo, seu filho precisa desligar-se de tudo o que o prende à infância e construir uma nova identidade para si. Mas, essa tarefa não é nada fácil. "Nesse período, os jovens sofrem uma indefinição ainda maior do que na adolescência. Eles estão deixando de ser crianças - algo que eles conhecem muito bem - para ser algo totalmente novo. Isso cria muita fantasia e expectativas", explica a psicanalista Priscila de Faria Gaspar.

Em primeiro lugar, as brincadeiras infantis são abandonadas de vez e entram em cena os jogos de raciocínio, típicos dos adultos. A fase do Clube do Bolinha - aquele onde "menina não entra" - finalmente acaba, reintegrando meninos e meninas. Ah, e não se espante se seu filho pedir que você o deixe um quarteirão antes da porta da escola e se recuse a dar um beijo de despedida: nessa etapa, as manifestações de cuidado e carinho dos pais são interpretadas como uma volta à infância - e isso é o que eles menos querem!

Priscila explica que muitos pré-adolescentes podem até mesmo se sentir em pânico ao se deparar com as novas regras de seu grupo social e achar que não poderão se adequar a elas. "Vou ter que namorar? E se eu não conseguir?", é um pensamento comum na cabeça de muitos pré-adolescentes. Entre as meninas, a preocupação em se adequar aos padrões de beleza também gera muita angústia. Em razão desse sofrimento, o jovem pode se isolar e a apresentar um comportamento auto-destrutivo. Em casos mais intensos, pode até vir a ter depressão.

Dicas para os pais

Já deu para perceber que essa fase não será nada fácil, não é? Leia, a seguir, uma série de dicas sobre como agir com seus filhos em diversas situações. Boa sorte!

Roupas, piercings e tatuagens: Por mais que seu filho use roupas que você ache inadequadas, tente respeitar seu estilo. Ele precisa realizar suas próprias experiências para poder amadurecer e definir sua identidade. "Não coloque no mesmo nível regras para coisas sérias, como o uso de drogas, e regras para coisas menos sérias, como o uso de determinado tipo de roupa. Se os pais fizerem isso, os filhos vão achar que eles implicam com tudo e não vão dar valor às recomendações realmente importantes", alerta a psicanalista.

Em relação a piercings e tatuagens, a coisa se complica. Se seu filho perguntar por que você não o deixa fazê-las, não diga apenas que é porque você não quer ou porque você é a mãe (ou o pai) e sabe o que é melhor pra ele. Esse tipo de argumento é vazio, não funciona. Informe-se sobre os riscos que isso pode trazer e explique os motivos pelos quais você acha que ainda é cedo para ele fazer um piercing ou uma tatuagem. Diga que quando ele for mais velho, poderá decidir melhor.

Sexo e drogas: Assuntos como drogas e sexo precisam ser conversados. Mas não de uma maneira direta e professoral, como se você estivesse dando uma palestra ao seu filho. Quando surgir uma brecha - por exemplo, num programa de televisão que toque em um desses assuntos - aproveite para manifestar sua opinião e mostre-se aberto a discutir mais detalhes sobre o tema.

"Mas, não adianta só falar que sexo é errado e que drogas não dão prazer. Negar isso é entrar em contradição com o que os filhos vão ouvir dos amigos e, eventualmente, experimentar por conta própria. Por outro lado, cabe aos pais mostrar a eles que nem tudo na vida é prazer: existem riscos, regras e limites reais, como a possibilidade de ficar viciado, dependente quimicamente e, em função disto, destruir a própria vida", explica Priscila. Se os pais apenas fizerem terrorismo em relação às drogas, os filhos terão ainda mais curiosidade sobre elas e, quando entrarem na adolescência, fase em que contrariam todos os valores familiares, vão usá-las como uma forma de contestação.

A psicanalista também recomenda que os pais valorizem ao máximo a individualidade de seu filho. Isso fará com que ele se sinta seguro sobre sua própria opinião e ele não cederá tão facilmente às pressões do grupo para usar drogas ou assumir comportamentos inadequados. Mostre que cada um pode ser o que quer e não cobre para que ele se encaixe em determinados padrões.

Ídolos: Quando um pré-adolescente idolatra algum artista, ele está buscando uma forma de se identificar com algo. Aquele ídolo é, em parte, o que ele gostaria de ser. Isso acontece porque sua própria identidade ainda não está formada. "Através dos ídolos dele, você também poderá conhecer melhor seu filho, por isso procure saber quem eles são", recomenda Priscila. E, por mais que você ache horrível o artista que ele gosta, não faça gozações e nem o ridicularize. Provavelmente, daqui a alguns anos ele também o achará horrível.

No entanto, os pais devem tomar cuidado com o fanatismo exagerado. Comprar inúmeros pôsteres, revistas, e ficar ouvindo o mesmo CD o dia todo, é saudável, assim como ter o desejo de conhecer o ídolo. Mas, nada de ficar dias acampado na frente do hotel em que o ídolo está hospedado, esperando um aceno dele, ou o ficar seguindo para todo lado. Quando o ídolo vira obsessão, talvez seu filho esteja passando por algumas dificuldades e seja o momento de procurar a ajuda de um psicoterapeuta.

Baladas e afins: Seu filho quer ir à matinê da discoteca e você não sabe se deixa ou não. Ele faz escândalo, diz que todo mundo vai - menos ele, é claro - e fecha a cara. Não desiste até você ceder. Pois é. Por mais que seja doloroso, seu filho está certo. Ele precisa conquistar a independência dele. Cabe aos pais avaliar os riscos reais que seus filhos correm e permitir que essa conquista ocorra gradativamente. É claro que alguns pré-adolescentes têm menos maturidade do que outros e os pais devem avaliar o momento certo de soltar um pouco as amarras do seu filho.

O shopping é o local preferido para esses primeiros vôos, pois tem bastante segurança, além de oferecer muitas opções de lazer. Quanto às discotecas, é bom se informar se o local vende bebidas alcoólicas e qual o público que o freqüenta. "É importante soltar o filho aos pouquinhos, mas acompanhando de perto. Se seu filho vai ao shopping com os amigos, dê toda a orientação necessária e estabeleça um horário para a volta", aconselha Priscila.

Relacionamento entre pais e filhos: Quando os filhos começam a entrar na adolescência, os pais acabam afastando-se deles - e vice-versa. Os pais ficam perdidos em meio às mudanças que ocorrem com os filhos e não sabem como agir diante delas. Com medo de perder o controle, acabam impondo limites demais e não se mostram abertos ao diálogo. Os filhos, por sua vez, sentem-se incompreendidos e ficam com medo de conversar com os pais, por achar que eles vão reprovar seu comportamento, suas atitudes. Cria-se um círculo vicioso em que ambos saem prejudicados. Para evitar que isso aconteça entre você e seu filho, siga as recomendações da psicanalista:

  • Aproxime-se do universo do seu filho, mantendo-se informado sobre seus gostos e interesses.

  • Mostre-se sempre disposto a conversar sobre qualquer assunto, mas sem forçar a barra. Não insista para que ele fale sobre algo que ele não quer, pois a conversa deve ser espontânea.

  • Não assuma uma postura de crítica em relação a tudo. Em vez de ficar fazendo sermão a cada coisa que acontece, procure saber o que aconteceu, o que levou seu filho a agir de determinada maneira e converse muito com ele.

  • Mostre-se interessado pela vida do seu filho. Pergunte sobre o que aconteceu na escola, porque ele brigou com o amigo, etc.

  • Elogie quando seu filho fizer algo bom. Ele sentirá que não apenas os erros são levados em conta, mas os acertos também.

  • Seja simpático e bem-humorado com os amigos do seu filho. Se os amigos dele gostarem de você, seu filho ficará mais próximo, pois também achará sua companhia interessante.

  • Não seja chato! Não dê broncas justamente quando ele está se divertindo - com um jogo de computador ou vendo um filme na televisão - e muito menos na frente dos amigos. Nada de sermões intermináveis, pois eles não funcionam. Dê seu recado de forma breve.

  • Nunca use a frase "no meu tempo, não era assim" como argumento para alguma proibição. Isso cria um distanciamento entre você e seu filho, que ainda por cima se sente comparado aos pais - e já vimos que os pré-adolescentes detestam isso.


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