Quarta-feira, 03 de junho de 2020
Página inicial do clicfilhos.com.br
    

Momento de alfabetizar

Por Norma Leite Brandão *


Muito já se discutiu a respeito da época certa para se iniciar o processo de alfabetização. As escolas, baseadas em diferentes teorias, divergem. Será mesmo que o começo dessa experiência está nas mãos do adulto?

Para responder a essa pergunta é necessário que nos lembremos um pouco do passado. De uma época em que as crianças, até os seis anos, não iam à escola e não eram tão expostas à linguagem escrita por meio de revistas, jornais, outdoors, videogames, computadores.


As letras mal existiam em seu cotidiano. Isso fazia com que iniciassem os estudos aos sete anos quando, então, o mundo escrito lhes era apresentado. Isso acontecia num ensino formal e dirigido. Como se elas só aprendessem aquilo que os adultos lhes mostrassem, de forma passiva. Definitivamente não é o que hoje ocorre.

Crianças, seres ativos e curiosos

Atualmente é reconhecido que o processo de alfabetização começa desde a mais tenra idade. Os estímulos são muitos e fazem com que seu filho lhe faça perguntas inesperadas, às vezes desconcertantes. Ainda que esse não seja um procedimento formal, acadêmico, não se engane: ele já está pensando sua escrita.



Faz isso ao desenhar no papel, ao inventar letras, combinar sílabas, ao pegar um livro e tentar adivinhar o que está escrito, contar histórias. São momentos importantes porque fazem com que se familiarize com a linguagem simbólica e levante hipóteses sobre a escrita alfabética. E esse é o começo de tudo.



Retirar essa experiência da vida de uma criança em nome do "momento certo" é olhar a aprendizagem sob o ponto de vista do adulto. Porque o "momento certo" é aquele em que ela nos procura, nos faz perguntas, mostra-se ávida por saber e descobrir coisas novas. E isso, no mundo de hoje, ocorre desde cedo.

Ambiente letrado em casa e na escola

O papel da escola de educação infantil e da família, nesse início de processo, é amplo e rico: é fazer com que a criança leia o mundo e comece a expor suas primeiras palavras e idéias no papel - ainda que não o faça de um jeito perfeito, correto, convencional. E isso não é fácil. Exige autoconfiança, crença em si próprio. Ela trocará letras, inverterá sílabas, inventará traçados. Tudo faz parte. Significa que está buscando aproximar-se desse universo simbólico.


Por esse motivo, propicie a seu filho um ambiente em que o mundo das letras esteja presente e que possa ser referência em suas descobertas. Aqui vão algumas dicas que podem ajudar a iniciação:



  • Ofereça desde cedo um acervo de livros com textos e ilustrações - uma pequena biblioteca construída e organizada com seu filho.


  • Visite livrarias, faça com que tenha contato com diferentes materiais.


  • Disponibilize lápis de cera, blocos de desenho para os primeiros experimentos.


  • Conte-lhe, ao menos, uma pequena história diariamente.


  • Folheie livros na sua presença.


  • Peça que lhe conte histórias, manuseando livros.


  • Peça que registre as histórias contadas com desenhos, palavras, frases.


  • Deixe que a observe realizando alguns de seus escritos, como suas listas de compras, por exemplo. Procure fazê-las na letra de forma.


  • Corrija seu filho quando falar de forma infantilizada ou não compreensível.


  • Não ensine, nem exija que ele comece seus registros com a letra manuscrita. Letra do tipo bastão ou de fôrma são as mais indicadas nesse período.

    A glória de aprender com prazer

    Essas pequenas iniciativas fazem com que a criança tenha mais recursos para solucionar suas dúvidas, buscar respostas. Valem mais do que extensos, mecânicos e insatisfatórios exercícios de caligrafia.
    Na realidade, são maneiras de fazer com que o pequeno comece sua alfabetização com prazer, significado e gosto.



    Também vale lembrar que, nesse período tão rico e repleto de descobertas, a escolha da escola de educação infantil é essencial. Evite as escolas chamadas "preparatórias", aquelas que garantem o ingresso fácil no ensino fundamental. Em alguns casos o ritmo de trabalho dos alunos é acelerado e isso faz com que haja perdas preciosas, quadro que se complicará mais tarde.



    Uma boa pré-escola tem seu próprio projeto pedagógico e a passagem de seus alunos para a primeira série se faz de forma natural, como resultado de um processo construído ao longo da primeira infância.

    Cada qual tem sua hora

    Lembre-se: a aquisição da leitura e da escrita está profundamente ligada aos contatos com o universo escrito dos 0 aos 6 anos. Por isso mesmo, definir um momento certo para esse aprendizado, igual para todas as crianças, é desconsiderar experiência e maturidade individual.



    Cada criança é única, fato que precisa ser considerado por escolas e famílias. Sempre. É o que dará a medida do tempo apropriado, o que permitirá que não se antecipe nem se retarde a alfabetização.



    * Norma Leite Brandão é pedagoga e educadora.


  • Comentário:    
           

    Matérias relacionadas

       
    Momento Clicfilhos - Leitura, desafio de pais e professores 13/02/2020 às 16:18:58

    Habituar os filhos a mergulhar nos livros nem sempre é fácil. Aprenda, aqui, como estimulá-los.

       
    Momento Clicfilhos - Bullying, violência na escola 13/02/2020 às 15:20:51

    Humilhação, intimidação, ameaça. Diariamente, estudantes de todas as idades são vítimas desse tipo de violência moral na escola. Os agressores são seus próprios colegas. Como lidar com essa situação?

       
    Momento Clicfilhos - Seja um consumidor consciente 13/02/2020 às 13:11:21

    Escolher o produto que você irá comprar - e de qual empresa - é uma decisão que pode ajudar a salvar o futuro do planeta. Descubra como!

       
    Problemas todos temos 11/07/2002 às 14:11:00

    Dificuldades em casa: ansiedade, medo, vergonha de partilhar? Quando e por que abrir o jogo na escola?

       
    Bullying, violência na escola 01/08/2004 às 11:19:00

    Humilhação, intimidação, ameaça. Diariamente, estudantes de todas as idades são vítimas desse tipo de violência moral na escola. Os agressores são seus próprios colegas. Como lidar com essa situação?