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Vivendo no mundo da lua

Por Carla Oliveira * em 30/04/2004


Impulsivas, desatentas e inquietas, as crianças que sofrem de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) podem apresentar problemas de aprendizado e de relacionamento.

Crianças que apresentam Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) são muito agitadas, andam pelo ambiente sem parar, mexem em tudo, começam uma atividade em seguida da outra - sem gastar muito tempo em cada uma - e odeiam ter que esperar por sua vez. Até quando precisam ficar sentadas, durante o jantar, por exemplo, costumam ficar mexendo os pés e as mãos, olhando para os lados e parecem ansiosas para terminar logo.


Na escola, têm dificuldade para se concentrar e são comuns, nas provas, erros por mera distração. São muito impulsivas e respondem às perguntas antes mesmo de lê-las até o final, isto é, agem antes de pensar. Falta de organização e memória ruim são alguns de seus pontos fracos. Por esses motivos, mesmo que a criança seja inteligente e criativa, ela geralmente apresenta um desempenho escolar abaixo da média.


Quando o professor está explicando alguma coisa, a mente da criança não consegue se concentrar e começa a "viajar", pensar em várias coisas ao mesmo tempo. É comum que a criança interrompa a atividade a cada três ou quatro minutos, muitas vezes fazendo perguntas que nada têm a ver com o assunto. Freqüentemente, essa criança é vista como problemática ou mal-educada e os pais são criticados por não conseguir impor limites.

Mas, afinal, a culpa é dos pais?

Segundo a Associação Brasileira de TDAH, estudos têm demonstrado que a atividade elétrica cerebral em pacientes com esse transtorno é menor na região frontal do cérebro, que é justamente a responsável pela inibição de comportamentos inadequados, capacidade de prestar atenção, autocontrole e planejamento futuro. Isso reforça a tese de que o TDAH não é um problema psíquico nem comportamental, mas neurológico.


De acordo com o psiquiatra César de Moraes, professor de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Faculdade de Medicina da PUC-Campinas, o diagnóstico do TDAH envolve três sintomas fundamentais: hiperatividade motora, déficit de atenção e impulsividade. Tais sintomas não necessariamente ocorrem em todos os casos, pois existem três subtipos desse transtorno, que são: tipo desatento, tipo hiperativo/impulsivo e tipo combinado.


Como se vê, a criança pode apresentar apenas sintomas de hiperatividade e impulsividade ou apenas desatenção. Mas, o tipo mais freqüente é o combinado, em que ambos os sintomas ocorrem. O importante é que as pessoas saibam que o TDAH é decorrente de fatores genéticos e biológicos que não dependem do comportamento dos pais, ou seja, a criança não é assim porque não recebeu limites e disciplina.

Saiba identificar o problema

Não existe um exame que possa confirmar o diagnóstico de TDAH, que é feito através da observação dos sintomas em situações e locais diversos - casa, escola, etc. Infelizmente, por falta de informação, uma parte da comunidade médica ainda desconhece o TDAH e alguns profissionais chegam até a questionar a real existência desse transtorno.


"Os médicos que afirmam isso estão profundamente desinformados. O transtorno é reconhecido tanto pela Organização Mundial de Saúde, quanto pela Associação Americana de Psiquiatria, atinge cerca de 6% das crianças em idade escolar, gerando um impacto brutal sobre a vida escolar, social e familiar dos acometidos. Esse tipo de afirmação gera apenas mais atrasos no tratamento e mais sofrimento para as crianças e suas famílias", alerta o Dr. César de Moraes.


É importante, no entanto, saber que nem toda criança agitada ou desligada apresenta TDAH. O diagnóstico depende da intensidade dos sintomas e do impacto que eles causam na vida da criança. No site da Associação Brasileira de TDAH é possível preencher um teste, utilizado por profissionais especializados, que indica o transtorno. Mas, é importante saber que somente o psiquiatra pode fornecer um diagnóstico preciso. Para fazer o teste, clique aqui.

O que você pode fazer pelo seu filho

Pais de crianças com TDAH precisam de doses extras de paciência, dedicação e carinho para lidar com seu filho. É preciso entender que a criança não é assim por que ela quer, mas por fatores alheios à sua vontade, que ela nem mesmo compreende. Por isso, não adianta nada exigir do seu filho coisas que ele não consegue fazer, como ficar horas seguidas lendo um livro.


Isso não significa, de forma alguma, que você tenha que ser permissivo, mas apenas adaptar suas expectativas de acordo com as possibilidades do seu filho. "Os pais devem buscar, sempre de forma afetiva, estimular a criança a fazer aquilo que eles julgam necessário, mas valorizando a auto-estima e o potencial dela", destaca o Dr. César.


Como a criança com TDAH é muito "esquecida" e desorganizada, é importante que tenha uma rotina estabelecida, pois isso facilita a memorização das tarefas que ela precisa cumprir. E, ao invés de puni-la quando ela não conseguir realizar alguma tarefa, tente o caminho inverso: elogie-a cada vez que ela fizer algo difícil, como guardar seus próprios brinquedos nos lugares certos. É muito frustrante para a criança com TDAH receber criticas constantemente por seu comportamento inadequado.


E não se pode esquecer também que existe tratamento para esse transtorno. O profissional indicado nesse caso é o psiquiatra, que deverá receitar a medicação adequada. Os remédios são fundamentais para a diminuição dos sintomas, mas é necessário também um tratamento psicológico. Em geral, é realizada a terapia cognitivo-comportamental. As melhoras são consideráveis, mas 60% dos indivíduos continuam apresentando os sintomas na fase adulta.


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