Sexta-feira, 05 de junho de 2020
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Tradição preserva a identidade de nossos filhos

Por Norma Leite Brandão *


O mundo está mudado e há muita novidade no pedaço. Será que sobra tempo ou há razões para se cultivar, ainda, as tradições familiares?

Início do século XXI. O termo globalização parece ser a tônica e o negócio, dizem os entendidos, é preparar a moçada para a aldeia global, em que todos se comunicam, de forma rápida e eficaz.


A proposta, ao que tudo indica, repousa nas "antenas ligadas" aos acontecimentos, no intercâmbio de informações e na velocidade do pensamento. Nada mais verdadeiro quando a máquina rouba a cena. Nada mais real quando, ao simples toque no mouse, viajamos por países longínquos e conversamos natural e diariamente, pela Internet, com pessoas que jamais vimos e que, provavelmente, jamais iremos conhecer, de fato.


Bem, se tudo isso é verdade, também podemos afirmar que nunca, diante da dita globalização, foi tão fácil perder a identidade, aquilo que nos faz seres únicos e especiais, pertencentes a determinada família, residentes num determinado bairro, de uma cidade com características definidas, numa região específica de um país com dimensões continentais. Afinal, quem somos nós nesse mundo em que tudo fica pasteurizado e uniforme? O que nos diferencia do outro? Quais são nossas verdades e crenças? Nossas raízes?

Olhar-se no espelho

Quando se fala na importância da transmissão das tradições de uma família ou de um grupo social mais amplo remete-se a valores. É uma clara referência não simplesmente à manutenção de festas religiosas ou credos, mas, também, ao culto de determinadas práticas significativas na formação da criança e do jovem: as brincadeiras de roda, as histórias dos nossos antepassados, a "pelada" no campinho mais próximo, a pipa voando colorida nos céus ou mesmo antigos jogos, hoje esquecidos e trocados pela TV e video-games.


Falar em tradição é também falar de sons, de cantos, enfim, da boa música e variada dança que sempre permearam a vida do povo brasileiro, nas diferentes regiões desse imenso país - festas em que o povo se redime, se reencontra, se abraça e se vê. Olha-se no espelho.

A missão é sua

Não se iluda. A TV, a Internet, o cinema, as revistas não cumprirão o papel de dizer a seu filho quem ele é, de onde vem, a que grupo pertence, qual sua história. Não lhe dirão por quê e por quem lutar. Não discriminarão o verdadeiro do falso, nem lhe explicarão o que preservar. Essa é uma das missões primeiras da família e estende-se, posteriormente, à escola.


A tarefa não é simples, no começo. Implica em encontrar tempo, paciência, disponibilidade e prazer. Tempo para sair com seu filho, ver a luz do sol, programar atividades que precisem de espaço e recuperem a tradição. Paciência para sentar-se ao chão e, com ele, brincar, contar histórias, reavivando o passado e iluminando o presente. Disponibilidade para procurar músicas de qualidade, diferenciadas das escutadas no rádio ou na TV. Prazer em contar "causos" de família, levá-lo a peças teatrais que resgatem lendas e tradições ou a festas de rua.


Você vai "bater de frente" com o estabelecido? Ora, se vai! Mas não se importe muito com isso. Melhor agora do que perceber, posteriormente, que o tempo passou e algumas coisas não têm retorno. Por isso mesmo, é importante que essa tarefa comece cedo. Crianças habituadas a conviver com suas raízes são mais críticas e severas diante da novidade. Não cedem com tanta facilidade aos modismos e ao descartável. Podem ser atraídas, mas não se rendem ao que não tem consistência.

Um Brasil de muitas cores

Não fossem as questões levantadas, uma outra já justificaria a necessidade da transmissão de crenças, costumes e tradições pelos pais: mostrar aos filhos a grandeza do país em que vivem, a diversidade, a pluralidade cultural. Amar um país é, primeiramente, conhecê-lo e, por meio do conhecimento, admirar, respeitar e cultuar seus ritos e modos de vida.


Se o mundo é realmente uma aldeia global, cabe-nos mostrar aos jovens que eles têm como deixar a marca de seu povo impressa com tintas coloridas e alegres. Não há maior riqueza para uma nação do que ter filhos que valorizam suas riquezas culturais, que delas se orgulham.


Poucos papéis são tão importantes quanto o de mediador na transmissão de tradições e valores, desempenhado pela família. É dele que nasce a auto-estima, a crença de que há por quê lutar e a esperança de que haja saídas, quando tudo indicar o contrário.


Não é demais lembrar as palavras do grande educador brasileiro, Paulo Freire, homem que soube expressar como ninguém o sagrado sentimento de ser pertencente a uma cultura e dela se orgulhar:


"Antes de tornar-me um cidadão do mundo, fui e sou um cidadão do Recife, a que cheguei a partir de meu quintal, no bairro de Casa Amarela. Quanto mais enraizado na minha localidade, tanto mais possibilidades tenho de me espraiar, me mundializar. Ninguém se torna local a partir do universal. O caminho existencial é inverso. Eu não sou antes brasileiro para depois ser recifense. Sou primeiro recifense, pernambucano, nordestino. Depois, brasileiro, latino-americano, gente do mundo."


Resgatar nossa história, por meio da memória e da transmissão de valores culturais é inserir os filhos na jornada da vida, é lhes dar instrumentos de navegação nesse imenso mar que é o mundo. Não os deixe perder o leme!


* Norma Leite Brandão é pedagoga e educadora.


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