Sexta-feira, 22 de setembro de 2017
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Convivendo com um deficiente

Por Julienne Gananian *


A família de um portador de deficiência mental é especial. Saiba como lidar com a diferença entre os filhos, educando-os de forma equilibrada, realista e verdadeira.

Quando os pais descobrem que o seu bebê apresenta uma deficiência mental, sentem-se perdidos e precisam de tempo para elaborar a idéia.


"Ninguém está realmente preparado para esse susto. Quando a criança nasce, a primeira pergunta é sempre a mesma: a criança é perfeita? Se isso não acontece, a decepção é grande, os pais ficam abalados e arrasados" afirma Benilde Justo Caniato, mãe de quatro filhos - sendo três deles deficientes mentais - e autora do livro "Um Testemunho de Mãe".


Neste momento, surgem inúmeras dúvidas em relação à vida e ao futuro da criança e do seu relacionamento com a sociedade em geral. Porém, segundo a psicóloga Valéria Milhare, "não adianta querer que a sociedade aceite seu filho se dentro da família não houver compreensão e aceitação. Deve-se partir do micro para o macro, isto é, a sociedade só vai mudar e permitir uma maior integração se dentro de casa existir esta possibilidade".

Superproteção não!

A criança com deficiência tem necessidades especiais. Precisa de muita estimulação e de um atendimento mais direcionado, mas isso não significa superproteção. "Muitos pais protegem exageradamente o filho deficiente, "doando-se" integralmente. De certa forma, esta atitude surge para suavizar a culpa, inconsciente ou não, que podem sentir" afirma a psicóloga. Conseqüentemente, a estrutura e a dinâmica familiar se alteram, pois os pais "deixam de lado", por exemplo, os outros filhos.


Alguns casais se doam tanto que passam para os outros filhos responsabilidades que não são deles. Cobram uma maior atenção sobre os problemas do irmão e, no final, provocam um amadurecimento precoce e indesejável das outras crianças da família. A psicóloga conta que, para alguns pais, ela precisa ser pontual e dizer: "o portador da deficiência é filho de vocês e não de seus filhos!" É claro que os irmãos podem ajudar em algumas situações, mas não devem assumir o papel de responsáveis nem abrir mão de sua liberdade para desempenhar tarefas que não são suas.


Outro extremo, igualmente inadequado, se vê nas famílias em que o deficiente vira símbolo de problema, tornando-se o centro em que todos despejam as angústias e conflitos. Os pais devem buscar o equilíbrio. De que forma? "Dando a cada um dos filhos - de forma individual - o suporte e o acompanhamento de que necessitam. Afinal, cada um tem seus problemas, não importa o nível de gravidade. E todos merecem atenção! Assim, haverá qualidade de vida para a família inteira, não apenas para um", explica a psicóloga.

Igualdade entre os pequenos

"Na minha experiência vejo que crianças normais bem pequenas, quando estão com outras deficientes, não notam nenhuma diferença. Os pequeninos percebem intuitivamente quando seu irmão ou amiguinho está precisando de ajuda sem necessariamente saber que ele é portador de deficiência mental. Nessa fase não existe a questão do preconceito, todos são iguais" afirma Valéria.


Por volta dos 5 ou 6 anos as crianças começam a buscar sua identidade, observando as pessoas ao redor e questionando os adultos sobre as diferenças. "Alunos de escolas comuns que convivem com deficientes mentais na sala de aula lidam de outra forma com as diferenças. É uma maravilha, eles aprendem a respeitar cada um do jeito que é" conta Valéria Milhare.

Vergonha ou aceitação?

Alguns deficientes mentais podem apresentar comportamentos "inadequados" fora - ou mesmo dentro de casa. Não é raro que os irmãos sintam uma certa vergonha e fiquem temerosos de "perder" seus amigos por conta disso. Afinal, alguns caçoam, partem para a gozação.


Muitos tentam evitar o contato do deficiente com seu círculo de amizades, com medo da rejeição. Outros assumem o papel de "defensores" e enfrentam a situação. Explicam que o irmão é diferente e, quando chegam na adolescência, por exemplo, promovem programas em que todos saem juntos, se divertem, respeitando os limites do mais frágil da turma.


"Coloquei meus três filhos com deficiência mental na mesma escola que a irmã, Taís, freqüentava. Um dia cheguei do trabalho e Taís, ainda pequena, estava chorando. Ela contou que estava brincando no escorregador com Líris, a irmãzinha deficiente, e que um amiguinho tentou impedí-la de participar, pois era boba. Ela me perguntou se isso era verdade. Expliquei as dificuldades dos irmãos e disse a ela que iria ouvir muitas vezes que seus irmãos eram bobos, deficientes e até retardados. E acrescentei que os quatro filhos eram frutos do amor de seus pais, portanto amados da mesma maneira. Ela parou de chorar e entendeu" conta Benilde Caniato.

Orientação para pais

A forma como os pais criam seus filhos reflete no modo como eles lidam com o problema. Se a criança deficiente for estimulada física e socialmente, de forma global, tende a se desenvolver melhor. Deve-se estabelecer limites para todos os irmãos, pois só assim eles se sentirão realmente seguros. O deficiente mental precisa de um cuidado maior, mas isso não significa que não será magoado ou que não encontrará outras dificuldades na vida.


"Muitos pais privam a criança deficiente de enfrentar situações difíceis, tolhendo seu direito de lidar com as emoções da vida. Não podemos duvidar da sua capacidade, temos que dar as oportunidades para que ela mostre o que realmente pode, até onde consegue ir," ressalta Valéria Milhare.


Assim, será mais fácil entender o processo de desenvolvimento da criança. Aprendendo com a família e a sociedade, ela também terá seus valores e descobrirá, da mesma forma que os irmãos, que a vida tem regras, normas e que o mundo não é perfeito. "Os pais e irmãos são a base de sustentação para a pessoa com deficiência mental. Sem esse núcleo não se chega a lugar nenhum", conclui a psicóloga.


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