Quarta-feira, 22 de novembro de 2017
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Solidários desde a infância

Por Norma Leite Brandão *


Você sai de carro com seu filho. Ao aproximar-se de um sinal, uma criança se aproxima da janela e, rapidamente, você fecha os vidros. Seu filhote fica supreso, parece não entender o que se passa. Como falar de nossos medos? Como explicar o inexplicável?

Poucas coisas são tão difíceis para os pais quanto explicar aos filhos o que se vê pelas ruas de uma grande cidade, nos cruzamentos, embaixo dos viadutos e pontes. A miséria e o abandono nunca foram tão marcados, pontuados diariamente em programas de TV, jornais e espaços públicos. Não há como fugir das perguntas, dos olhares inquisidores. Não há como nem por quê.


Embora seja uma tarefa difícil, hoje, mais do que nunca, parece ser necessário que família e escola se debrucem sobre questões sociais e permitam que as crianças e adolescentes percebam que todos têm uma tarefa diante da dura realidade que permeia o cotidiano.

Tudo começa em casa

Muito se discute, atualmente, sobre a questão da solidariedade e da importância de cada um no processo de transformação da sociedade. Há vários caminhos de ação, mas todos eles exigem que crianças e jovens estejam conscientes e sensibilizados para a vida real.


Responder de forma direta e simples às questões trazidas pelos filhos parece ser o começo de tudo. É o primeiro passo para que reflitam sobre as desigualdades e a falta de oportunidades de grande parte da população. Isso não é novidade para seu filho, lembre-se disso. Em suas perguntas, ele apenas procura compreender melhor o que vê no dia-a-dia e busca algumas respostas e coerência em seus atos.

Da consciência à ação

Teorizar sobre as desigualdades não basta. Não altera a realidade e não permite que seu filho perceba a importância de sua ação. Parece ser necessário procurar algumas saídas mais efetivas e concretas. Por que não conversar em família sobre possibilidades que estejam ao alcance de todos e que signifiquem contribuição real?


Para os pequenos, a doação regular de revistas, livros, roupas e brinquedos pode ser um bom começo! Mas, veja bem, a doação de qualquer bem material é somente um lado da questão. Interessante seria que, juntos, vocês pudessem visitar a instituição beneficiada, que houvesse a possibilidade de aproximação entre quem doa e quem recebe.


Visitas periódicas a alguma comunidade podem "render" mais, muito mais do que somente enviar doações. É do contato com as pessoas e suas necessidades que vislumbramos outras formas de atuação - na maioria, mais eficazes, com resultados mais expressivos. O grande vazio das instituições está na solidão, no abandono. Então, por que não contribuir com brincadeiras, conversas informais, jogos, leituras? Essas são possibilidades de ação que realmente transformam as pessoas: agem sobre quem dá e sobre quem recebe.

Construindo a cidadania

À medida em que as crianças crescem, suas possibilidades de auxílio podem ser bem mais significativas. Atualmente, várias instituições de ensino fundamental e médio têm procurado, por meio de atividades voluntárias, estimular os jovens a participar de projetos junto a comunidades carentes. Essa é uma tendência que cresce a cada dia, uma vez que a escola parece começar a compreender que só formará seus alunos de forma integral se houver o comprometimento com o outro.


As propostas são as mais diversas: reciclagem, leitura de histórias, alfabetização, trabalhos corporais, jogos, oficinas. A idéia é o compromisso com o próximo. Para que se tornem adultos responsáveis e atuantes. Para que vinculem seu aprendizado teórico à prática e para que, principalmente, percebam que ajudar não significa apenas doar bens materiais.


Se a escola de seu filho se envolve projetos dessa natureza, incentive-o a participar. A experiência é rica e não deve ser ignorada em nome de medos, ansiedades ou questões práticas.

Caminho de mão dupla

O voluntariado é um caminho de mão dupla. Nessas atividades crianças e jovens percebem que não somente doam, mas recebem, aprendem, tiram lições que nenhum discurso ou aula teórica lhes dará.


Esse tipo de experiência também faz com que enxerguem sua própria realidade com outros olhos: passam a valorizar o que possuem, a rever seus hábitos e crenças. Para o adolescente, a possibilidade de participar de um projeto social pode significar preencher um vazio próprio da fase que atravessa.


Por tudo isso os adultos não podem - nem devem - se furtar de ajudá-los a seguir em frente. Cuidar daqueles que precisam é assumir atitudes que representam mudanças. É trabalhoso, toma tempo, provoca inquietações. Mas, com certeza, fará de crianças e jovens seres mais participativos e atuantes em sua comunidade.



* Norma Leite Brandão é pedagoga e educadora.


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