Sexta-feira, 29 de maio de 2020
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Sexo, por que falar

Por Tânia Zagury *


Se o assunto é difícil para você, trate de fazer um esforço extra e vencer seus próprios bloqueios. Saiba que seu filho precisa de sua orientação desde bem pequeno.

Por que falar sobre sexo com nossos filhos? Esta é uma interrogação que muitos pais se fazem. "Afinal", pensam muitos deles, "meus pais jamais abordaram esse tema comigo e eu resolvi tudo direitinho na minha vida, não é? Então, por que razão deveria eu tratar esse assunto com eles?"


Poucas pessoas sentem-se bem ou confortáveis ao falar sobre sexo, ainda hoje. No entanto, algumas razões muitos importantes existem para que os pais pensem duas vezes antes de deixar o assunto de lado e apenas rezar para que tudo corra bem:


  • Nossos filhos, hoje, são bombardeados, desde a infância, com informações das mais variadas sobre sexo vindas das mais diversas fontes: programas de TV, clipes musicais carregados de sugestões eróticas, conversas com amigos, imprensa, revistas nas bancas, filmes, Internet, etc.

  • Nem sempre as informações que essas fontes trazem a nossos filhos são as mais saudáveis do ponto de vista de uma sexualidade feliz e bem resolvida.

  • Há, nos nossos dias, um crescente e assustador incremento nas doenças sexualmente transmissíveis, sem contar HIV/Aids.

  • A vida sexual está começando cada vez mais cedo (na pesquisa que fiz a respeito em 1996, com quase mil jovens, descrita no livro O Adolescente por Ele Mesmo, pude constatar que 20,6% dos adolescentes iniciam sua vida sexual com 14 anos ou menos) e, conseqüentemente, os riscos também.

  • Anualmente nascem, no Brasil, um milhão de bebês filhos de adolescentes. Isso sem levarmos em conta o número de abortos (segundo minhas pesquisas, o percentual de jovens que já haviam praticado ao menos um aborto foi de 7,3% da faixa entre 14 e 18 anos).

  • Justamente por receberem tantas informações e de tão variadas fontes, nossos filhos precisam ser orientados. E cabe à família essa tarefa, ainda que a escola em que nossos filhos estudem tenha no currículo orientação sexual. A escola informa muito bem sobre fatos como reprodução, prevenção e doenças, promove discussões muito úteis, mas é à família que cabe o papel de transmitir os valores morais e as posturas nas quais acredita e que deseja que os filhos respeitem e sigam em sua vida.

  • Os últimos estudos epidemiológicos sobre Aids feitos nos Estados Unidos demonstram que mais de 50% dos novos casos anuais de infecção por HIV estão ocorrendo entre jovens de menos de 24 anos.


    Esses sete itens são suficientes para convencer qualquer pai consciente de que é impossível passar ao largo do problema, fechar os olhos ou simplesmente fingir que ele não existe.

    O objetivo que precisamos atingir é fazer com que nossos filhos falem CONOSCO sobre sexo ou, pelo menos, que não conversem sobre o assunto apenas com outras pessoas. Então, se vocês, pais, sentem-se à vontade para tratar o tema, ótimo. Porém, mesmo que isso seja difícil ou constrangedor, não podemos deixar o assunto de lado, pelas razões acima explicitadas.

    Esqueça a timidez

    O que fazer então? Tranqüilos ou inibidos, não importa. O primeiro passo é preparar-se para tratar o assunto com base, apresentando sempre dados teóricos significativos. Existem hoje muitas publicações excelentes que podem ajudar pais inseguros a abordar com mais tranqüilidade um tema tão delicado. Ter informações consistentes e sólidas sobre gravidez, contracepção, doenças sexualmente transmissíveis, sexualidade e prazer é fundamental.


    Só depois dessa preparação inicial é possível colocar mãos à obra e ter êxito. Se ainda estiver emocionalmente inseguro, mesmo tendo lido e aprendido muito, que tal começar dizendo exatamente como você se sente? Seu filho vai gostar de saber que, embora não se sinta bem, você está se esforçando para oferecer-lhe o apoio e a possibilidade de tirar suas dúvidas com alguém em quem ele confia. Não tema mostrar seus sentimentos: isso costuma funcionar muito bem - a opção pela verdade e pela autenticidade. É válido, inclusive, deixar claro que, se vocês não souberem alguma coisa, poderão procurar a resposta juntos.



    Esse encontro de sentimentos é tão importante quanto ter as informações básicas sobre o tema. Afinal, mostrar que estamos disponíveis, preocupados com a felicidade e o bem-estar de nossos filhos é porta que abre caminho para o diálogo e para o entendimento.

    * Tânia Zagury é filósofa, mestre em Educação, professora adjunta da UFRJ, autora dos livros Sem Padecer no Paraíso, Educar sem Culpa, O Adolescente por Ele Mesmo, Rampa e Encurtando a Adolescência, entre outros.


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