Domingo, 21 de dezembro de 2014
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Preconceito e diversidade

Por Norma Leite Brandão *


Recentemente as imagens da tragédia americana, veiculadas pela TV, jornais e revistas abalaram o mundo. Mais do que isso, provocaram medo, um forte sentimento de repulsa e, para muitos, de revanche. O que dizer a nossos filhos diante da barbárie?

Misto de terror, angústia, raiva. Quem não se chocou com tudo o que foi veiculado pela mídia? Nesses momentos as palavras brotam de forma impensada. Atos de violência contra cidadãos comuns, de diferentes nacionalidades, têm espaço. Cidadãos que, não somente encontraram oportunidades num novo país, mas ajudaram a construir uma nação são repudiados. Seres que passam a ser olhados com desconfiança, medo e, até mesmo, ódio.


Vemos tudo isso acontecer, mas não podemos nos esquecer que os filhos a tudo observam. Família e escola deparam-se com afirmações categóricas e indignadas das crianças e muitas, muitas perguntas...

Pluralidade cultural

Lidar com a diversidade, seja ela racial, social, econômica ou religiosa, não é fácil. Mas é tarefa de quem educa, pai ou professor. Porque aprender a viver em comunidade é saber lidar com as diferenças de qualquer natureza. Não foi por acaso que uma das áreas inseridas nas recentes orientações do MEC para escolas denomina-se Pluralidade Cultural.


Ampliar os horizontes de crianças e jovens, tirá-los de sua "redoma" e educá-los para o respeito às mais diversas crenças é essencial nos tempos modernos. Fundamental para quem deseja a paz e a harmonia. Na era da globalização o grande desafio reside na valorização de diferentes culturas para que elas se completem e se ajudem.


O preconceito nasce do medo e da ignorância. O exercício da tolerância só é possível por meio do conhecimento e passa pela consciência de que não somos donos da verdade. Difícil? Sem dúvida alguma. Principalmente diante dos fatos que abalaram a sociedade americana e o mundo. Mas uma pergunta é necessária: qual é nosso papel? Reproduzir a violência ou ajudar os filhos numa análise crítica diante dos fatos?

As lições do cotidiano

Constantemente esquecemos que da nossa postura diária diante dos fatos as crianças e adolescentes tiram lições mais proveitosas do que de longos discursos. E isso acontece desde muito cedo. Observam nossa relação com a empregada, com o porteiro, com os funcionários da escola. Nessa observação levam em conta não somente a forma como nos dirigimos a eles nos fatos mais corriqueiros, mas a maneira como lidamos com suas idéias a respeito do mundo.


Tudo é registrado, ainda que inconscientemente: nossas inquietações, contradições - e quem não as tem? Mais importante do que evitar as contradições, é conseguir conversar sempre com os filhos sobre o polêmico e sobre o já estabelecido.


Para isso não é necessário preparar aulas nem discursos. Mas ter olhos e ouvidos atentos para capturar situações do dia-a-dia que possibilitem perguntas e que façam as crianças falarem. Vale sempre repetir: somente quando os filhos se expõem, conseguimos perceber suas dificuldades para lidar com as diferenças e com os conflitos.

Use a mídia a seu favor

Nenhum material é tão rico para propiciar perguntas e momentos de troca na família como os jornais, revistas e a já tão discutida TV. São meios de comunicação que trazem à tona a diversidade, seja ela cultural, social, sexual ou religiosa. Importante, também, perceber como a mídia, em especial a telinha, lida com essas diferenças.


Inúmeras vezes o faz de forma preconceituosa, com abordagens, hoje, inaceitáveis, mas que crianças e jovens reproduzem inconscientemente. Recebem um bombardeio de informações, muitas vezes sem reflexão. Pinçar alguns assuntos e episódios para ouvir o que têm a dizer e fazê-los refletir de maneira um pouco mais crítica é essencial. Proporcionar, também, diferentes fontes de informação sobre determinados assuntos que geram polêmica também parece ser um caminho.


Após os atentados nos EUA, numa escola do Rio de Janeiro a aula começou com as seguintes reflexões entre duas crianças:
"O simbolismo do ataque foi legal, pois matou o símbolo do capitalismo. A idéia era atacar o capitalismo."
"Foi legal porque não atingiu você. Foi um ataque à pátria americana e, para eles, isso representa um ataque direto à vida das pessoas."


O breve diálogo exposto traz à tona conceitos que, se desdobrados de forma significativa, produzem mais conhecimento do que qualquer aula expositiva, meramente teórica.


Abrir espaço para esse tipo de expressão suscita perguntas a serem respondidas e, conseqüentemente, um trabalho intenso de reflexão e pesquisa por parte dos alunos. É obrigação da escola trazer à tona o conflito, a discussão diante de fatos que lidem com diferentes aspectos: sociais, políticos, econômicos, religiosos. Assim como é dela, também, o papel de observar e ajudar seus alunos a lidar com diferenças tão comuns dentro da própria sala de aula: o gordinho, o que usa óculos, a deficiência física e mental, entre outras.


Cabe à família, nesses momentos, acompanhar o trabalho desenvolvido pela escola; verificar em que medida seu ensino aproxima crianças e jovens da realidade, como aproveita situações reais e as transforma em aprendizagem.

Reorganizar as agendas

Freqüentemente os educadores falam em aprendizagem significativa, espírito crítico, formação integral. Teoricamente tudo parece muito bonito. A grande questão é transformar a teoria em prática permanente. Para a escola isso significa rever o conteúdo e a forma de abordagem. Para as famílias, é repensar seus próprios valores e a qualidade de tempo dispensada na formação dos filhos.


Nossa agenda é sempre tão preenchida, não é verdade? Mas há questões que não podem ser mais adiadas. Sob pena de não cumprirmos o papel que nos é destinado: o de preparar o terreno para que os jovens, no futuro, possam transformar a realidade que se apresenta.


Para que isso aconteça, os valores básicos de respeito às diferenças individuais e coletivas são fundamentais. Não há como discursar sobre uma sociedade mais justa e igualitária se essa tarefa não se iniciar nos aspectos cotidianos de nossa casa e comunidade e não se estender a uma reflexão sobre os acontecimentos veiculados pela mídia.


* Norma Leite Brandão é pedagoga e educadora.


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